Regras de Mabillon

Extraídas do livro " Solemnia verba", de Alexandre Herculano, e encontradas no livro Teoria da História do Brasil, de José Honório Rodrigues, p.312\ Companhia Editora Nacional\MEC.

1 - Aquilo em que sobretudo devemos acautelar-nos no estudo da História é em evitar todos esses vícios em que é fácil cair; em não admitir por verdadeiro o que é falso, e em não nos deixarmos dominar pelas afeições particulares dos historiadores. É necessário, primeiro que tudo, pesar atentamente os dotes do autor, se é idôneo e sincero; o que o moveu a escrever; se pertence a algum bando ou seita...

2 - Devemos averiguar se o autor que lemos é síncrono ( contemporâneo ); se escreveu ele próprio, ou se copiou outro; se é prudente nas suas afirmativas, ou se apenas se estriba em conjecturas; porquanto, dada a paridade no demais deve-se preferir a opinião do autor coevo à do mais moderno. Digo - dada a paridade dos demais - porque pode acontecer e acontece às vezes, escrever a História com inteira madureza o autor síncrono, estribado em monumentos sérios e boas razões, e o contemporâneo muito ao contrário, ou seja por negligência, ou seja por ignorância dos fatos, ou seja alguma prevenção, ou finalmente porque subjuga a força do próprio interesse.

3 - Segue-se daqui que não se dever confiar demasiado naqueles fatos sobre que os escritores rigorosamente contemporâneos, ou quase contemporâneos guardaram silêncio; posto que possa acontecer que um autor mais moderno consultasse alguns monumentos importantes, guardados em lugar oculto quando os fatos aconteceram, ou visse escritores síncronos ou quase síncronos, cujas obras depois se perdessem. Se, porém, esses escritores, ou os que lhes sucederam, no intervalo de um até dois séculos, nada dizem a tal respeito, e não obstante isso um historiador mais moderno, sem se estribar em testemunho de autoridade alguma, se atreve a asseverar temerariamente e para enganarmos os outros.

4 - Com todo o cuidado nos devemos premunir para não sermos ilaqueados por alguns autores supositícios nestes nossos tempos...

5 - Não se deve proscrever qualquer autor por um ou outro defeito de paixão ou alucinação, pela rudeza do estilo, ou por outra imperfeição própria da natureza humana, com tanto que seja sincero e pontual no resto...

6 - Não se devem desprezar os antiquários, autores de resumos históricos, e compiladores...

7 - Quando as narrativas variam, não nos devemos deixar atrair pela consideração do número, mas sim pelo mérito e gravidade dos autores visto que muitas vezes acontece que a autoridade de um autor grave e sincero merece preferir-se ao testemunho de cem de menos fé, porque estes se foram repetindo uns aos outros sem madura discussão e diligente exame das coisas...

8 - Por este mesmo motivo não deve fazer-se grande fundamento na quase inumerável multidão de casos que muitos modernos costumam amontoar nas vidas de certos santos...dizendo isto, sinto apertar-se-me o coração, e com mágoa devo acrescentar, que são muitíssimo mais exatos os outros profanos escrevendo vidas de étnicos, do que muitos cristãos relatando vidas de santos, o que já receou afirmar Melchior Cano, referindo-se a Diógenes Laércio e Suetônio.

Obs: A regra crítica de Guigo, quinto geral dos Brunos, era também relembrada por Herculano: " Buscai a prova de tudo; o bom respeitai-o. Quem crê de pronto, é leve de coração" (p.312) A palavra crítica deriva do grego e significa: decidir, provar. Do livro "Teoria da História do Brasil", de José Honório Rodrigues

Pesquisa de Luiz Nogueira Barros

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